Durante muitos anos, fui bastante competente a resolver problemas, tomar decisões e fazer acontecer.
Pelo menos, em algumas partes da minha vida.
Noutras, nem por isso.
Havia projectos que avançavam, responsabilidades que cumpria e muita coisa a funcionar. Mas havia outras partes da minha vida que não estavam nada bem.
Até que colapsei.
Não acordei no dia seguinte com a vida resolvida. Nem pouco mais ou menos.
Comecei foi a fazer perguntas que nem sempre me apetecia responder.
Porque é que determinadas situações me afectavam tanto? Porque é que repetia comportamentos que sabia que não me faziam bem? E porque é que era tão fácil identificar certas coisas nos outros e tão difícil reconhecê-las em mim?
A pergunta mais desconfortável talvez fosse esta: qual era a minha parte naquilo de que me queixava?
Fui percebendo que conhecer as razões de um comportamento não me dá carta branca para continuar a repeti-lo.
E, mesmo assim, ainda hoje me acontece perceber perfeitamente o que estou a fazer e continuar.
É irritante. Sobretudo quando já devia saber melhor.
Mas há coisas que mudaram.
Hoje questiono mais as minhas certezas. Tento distinguir o que aconteceu da história que construí na minha cabeça. E procuro perceber o que estou a sentir antes de reagir.
Nem sempre consigo. Às vezes só percebo depois.
Continuo a aprender a ser pai, a relacionar-me, a trabalhar e a estar comigo e com os outros. Continuo a encontrar contradições minhas que preferia não descobrir.
Não tenho a vida resolvida.
Tenho mais consciência de algumas coisas, faço escolhas diferentes noutras e continuo a tropeçar em algumas das mesmas.
O que mudou foi deixar de acreditar que perceber a vida era o mesmo que saber vivê-la.